De Povos Indígenas no Brasil

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Guaranis querem modernidade. Sem sair da aldeia

14/02/2002

Autor: CAMILLA HADDAD

Fonte: Jornal da Tarde-São Paulo-SP



Olivio Jekupé, de 32 anos, usa o celular com familiaridade. Ele, no entanto, não é como a maioria dos homens das metrópoles, acostumados a todo o tipo de modernidade. Jekupé é um índio guarani, e mora na aldeia Krukutu, em Parelheiros, na zona sul, em companhia de outros 136 índios.

Em termos de tecnologia, Jekupé não vê grandes diferenças entre sua tribo e os homens da cidade grande. "O homem branco tem mania de pensar que nossos costumes estão acabando. Nós, índios, sabemos usar a tecnologia sem perder a tradição."

Ele mora em Parelheiros há dois anos. Veio da aldeia de Laranjinha, no Paraná, para estudar em São Paulo e se formou em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP). Já escreveu um livro e atualmente é poeta. É um dos poucos da aldeia que entende e fala a língua portuguesa.

Outro líder da aldeia, o índio Marcos Tupã, de 31 anos, é o presidente da Associação Indígena Nhé, em Porã. Fundada em 1999, a entidade tem até site na Internet.

Ambos lembram que, apesar de terem acesso à tecnologia, quem manda mesmo é cacique Ventura e o pagé Adão Papár. "Eles sempre dão a palavra final", afirma Tupã.

Uma vida pacífica e harmoniosa

A aldeia é próxima à barragem da Represa Billings. Como ninguém trabalha fora, todos vivem da venda de produtos artesanais - oferecidos durante a visita de estudantes - ou das apresentações do grupo de dança Krukutu em escolas da cidade.

Tupã descreve o dia-a-dia da aldeia como pacífico e harmonioso."As 30 famílias se dividem em três núcleos, distribuídos em 25 hectares. Todos os dias, às 18 horas, nos reunimos na 'casa de reza', onde o pagé prega ensinamentos e fala sobre nossos costumes." Ainda segundo a tradição, a casa é a única da aldeia feita de taipa. As outras são de pau-a-pique.

Na década de 80, a aldeia Krukutu já foi considerada uma das regiões mais pobres da cidade de São Paulo. "Não existia nenhum tipo de investimento público ou privado. A população só recebia auxílio como doações de alimentos ou roupas velhas", explica Tupã. Segundo ele, o cacique pouco podia fazer e a situação social se tornava mais precária pois a população da vizinhança não oferecia - e ainda não oferece - emprego para os guaranis.

As mulheres passam a maior parte do dia confeccionando chocalhos e cestas. A índia Alice, por exemplo, costuma passar as tardes ensinando aos netos os segredos do artesanato. Ela não fala português. Seus vizinhos, porém, preferem assistir à tevê.

Jekupé elogia a campanha da fraternidade Uma Terra Sem Males, que tem como tema os povos indígenas. "A campanha é positiva para conscientizar as pessoas e esclarecer que a catequese foi uma atitude pesada, não tão calma como dizem", afirma o guarani.

No próximo dia 22, a aldeia vai ganhar um posto de saúde da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), do Ministério da Saúde. "Agora só falta uma escola para beneficiar as nossas crianças. Hoje, elas precisam se deslocar até a aldeia do Morro da Saudade para estudar", afirma Jekupé.
 

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